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O TRAUMA NARRADO NA OBRA OS CUS DE JUDAS:
A LITERATURA A SERVIÇO DO TESTEMUNHO


The narrated trauma in Os cus de Judas:
The literature serving the testimony


Rafael Nunes Ferreira -
Graduando do Curso de Letras – Português, Inglês e respectivas licenciaturas
Universidade Federal do Pampa – Unipampa/Campus Bagé


RESUMO

No presente artigo, pretendemos analisar a narrativa Os cus de Judas (1979), cuja temática refere-se à experiência-limite vivenciada pelo escritor António Lobo Antunes (1942) durante sua passagem por Angola, servindo ao exercito de Portugal, durante os enfrentamentos bélicos denominados guerras coloniais portuguesas, ocorridos entre os anos de 1961 a 1974 em três frentes: Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Lobo Antunes, que estivera cerca de vinte e sete meses em Angola, atuando como médico – experiência que acabaria por marcar densa e profundamente toda sua obra literária –, ao renunciar o estatuto do silêncio, criou um testemunho voraz acerca da sua experimentação da guerra em África. Para tanto, o autor utiliza-se de um narrador-personagem que, por meio de reminiscências puerícias e meditações sobre a condição em que se encontra, narra, de forma fragmentada, os anos de temor e angústia inumanos que carrega na memória. Para a análise da obra antuniana, buscamos suporte em autores como Márcio Seligmann-Silva, Beatriz Sarlo, Rui de Azevedo Teixeira, entre outros, cujos estudos abordam aspectos como memória, testemunho, trauma, tempo passado, guerra colonial, etc.

Palavras-chave: Experiência-limite, memória, testemunho, representação.



1. INTRODUÇÃO


Nas últimas décadas, os estudos literários vêm apontando que o testemunho é um elemento recorrente na produção artístico-literária, sobretudo, naquelas obras que tematizam eventos catastróficos. A respeito disso, Márcio Seligmann-Silva observa que “é evidente que qualquer fato histórico mais intenso... [...] permite – e exige! – o registro testemunhal tanto no sentido jurídico quanto no sentido de ‘sobrevivente’” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 09). Seligmann-Silva trata de aspectos que envolvem a chamada literatura de testemunho, uma literatura tecida pela narração de episódios traumáticos, como, por exemplo, o assassinato em massa praticado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Todavia, a tese do presente exame não é determinar a que espécie de literatura a narrativa ora analisada pertence; mas, antes de tudo, dispor da coletânea crítico-analítica que, nos últimos anos, procura desenvolver um olhar reflexivo sobre questões relacionadas a narrativas cuja temática é a experiência de guerra. Em outras palavras, se há uma literatura que testemunha a memória do trauma – e que merece a devida atenção crítica e teórica –, qual é o lugar da literatura portuguesa pós-guerras coloniais, cujo valor literário e teor testemunhal são indiscutíveis? Destarte, memória, experiência, trauma e narração são conceitos-chave para os estudos literários acerca da presença do testemunho na literatura, principalmente, em se tratando da produção artística concebida no século XX: a “era das catástrofes”, nas palavras de Seligmann-Silva.

Para o pensamento freudiano (apud Seligmann-Silva, 2003, p.48), a experiência traumática não pode ser assimilada em sua totalidade no momento em que ocorre. Por isso, há um constante retorno, alucinatório, por parte da vítima à cena traumática. Ou seja, a história do trauma é a história de um abalo violento. Exemplos de eventos-limite podem se guerras, extermínios, acidentes, entre outros. Nesta esteira, podemos afirmar que o século XX revelou-se um tempo sui generis para o surgimento de narrativas escritas por sobreviventes, haja vista a vasta incidência de guerras, perseguições e genocídios que marcaram sua passagem, as quais revelam um conflito com o vivido, com o passado.

O tempo passado é sempre conflitante. Referem-se a ele, em concorrência, segundo afirma Beatriz Sarlo, “a memória e a história, porque nem sempre a história consegue acreditar na memória, e a memória desconfia de uma reconstituição que não coloque em seu centro os direitos da lembrança...” (SARLO, 2007, p.09). Do ponto de vista daquele que sobrevive a um evento-limite, a historiografia desempenha um papel limitado e não dá conta da sua experiência, pois se história do trauma é a de um choque intenso, é, ainda, a do “desencontro com o real” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.49). Portanto, em decorrência da incapacidade de dar forma ao vivido, reiteramos, advém a constante repetição e volta à cena do trauma.

O ato de narrar a experiência traumática funde-se na presença real do enunciador na cena traumática. João Camillo Penna afirma que “o testemunho fala e narra o nosso encontro com o ‘Real’ do trauma” (PENNA, 2003, p.345). Em outras palavras, ao externar uma lembrança, o sujeito-narrador fala de algo particular que se quer legítimo pela presença ativa no acontecimento em questão. Nesse sentido, passado e presente são indissociáveis, visto que a memória é o elo que os une, atuando sobre um e outro. Para Sarlo,

...não há testemunho sem experiência, mas tampouco há experiência sem narração: a linguagem liberta o aspecto mudo da experiência, redime-a de seu imediatismo ou de seu esquecimento e a transforma no comunicável, isto é, no comum. A narração inscreve a experiência numa temporalidade que não é a de seu acontecer (ameaçado desde seu próprio começo pela passagem do tempo e pelo irrepetível), mas a de sua lembrança. A narração também funda uma temporalidade que a cada repetição e a cada variante torna a se atualizar (SARLO, 2007, p.24 e 25).

Como já foi dito, o século XX é o tempo das catástrofes por excelência. Inúmeros episódios compõem o inventário de eventos-limite ocorridos em tempos e espaços diversos. Durante as décadas de sessenta e setenta, as guerras coloniais portuguesas, que envolveram Portugal, Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, constituem um período marcante na história bélica portuguesa e do século XX. De acordo com Rui de Azevedo Teixeira (1998), em 13 anos de guerra, foram mais de 1 milhão de soldados portugueses recrutados. Essa experiência de guerra, em Portugal, traduzira-se no surgimento de uma literatura pautada no resgate da memória e do testemunho da vivência traumática. Trata-se de uma literatura escrita por sobreviventes-testemunhas das guerras coloniais portuguesas, cujas narrativas relatam as experiências-limite vivenciadas durante a passagem pelos campos de batalha na África.


2. ÁFRICA, PORTUGAL E A GUERRA: UMA BREVE HISTÓRIA

Ao passo que as manifestações em prol da independência dos países africanos iam ganhando força, o Estado novo de António de Oliveira Salazar – no poder desde o golpe militar de 1926 –, procurava manter a mística imperial portuguesa, buscando, para tanto, reforçar as ligações entre Portugal e as colônias em África. (TEIXEIRA, 1998, p.31) Neste sentido, o regime salazarista, exercido de forma autoritária e ditatorial, e cuja base assentava-se sobre na tríplice nacionalismo-colonialismo-estatismo, passou a produziu um nível de opressão que aumentava “do centro para periferia, da metrópole para as colônias” (TEIXEIRA, 1998, p.32).

Prefaciando a guerra, as primeiras contestações africanas contra da condição colonial surgiram camufladamente por meio de reivindicações trabalhistas que foram “prontamente afogadas em sangue através de punições militares e paramilitares (TEIXEIRA, 1998, p.34). Embora a censura tenha calado os acontecimentos iniciais pró-independência e o regime de Salazar não tenha se preocupado com o iminente romper da guerrilha, a episódio ocorrido de 4 de fevereiro de 1961, em Luanda, onde um grupo de nacionalistas angolanos ataca duas cadeias e um quartel da polícia móvel portuguesa, com a finalidade de libertar ‘camaradas’ presos, simbolizou, de fato, o princípio do fim do império português na África e, historicamente, o inicio das guerras coloniais portuguesas.

Para o regime salazarista, esgotado internamente e isolado externamente, a opção pela guerra significou uma última tentativa de sobrevivência. Nas palavras de Carlos de Matos Gomes, “para existir um império era ainda necessário que a potência colonial dispusesse de força para impor o seu domínio” (GOMES, 2001, p.29). Por essa razão, no decorrer dos anos de guerra, tornou-se imprescindível o aumento progressivo da presença das tropas portuguesas mobilizadas em África, chegando ao seu ápice no início dos anos 70. Os custos para manutenção da guerra que se prolongava fugiram a todas as expectativas, comprometendo, gravemente, a economia de Portugal. Além disso, segundo Miriam Denise Kelm, “mortos e mutilados retornavam ao país, que os recebia em choque velado; nos lugares longínquos onde os combates aconteciam, as condições de vida dos aquartelados eram precaríssimas” (KELM, 2005, p.114).

Os dados trazidos na obra de Teixeira (1998) revelam o grau de envolvimento da nação lusitana durante os anos de uma guerra cuja busca da vitória se dava por meio de uma violência maciça, organizada, e que produziu grande sofrimento:

Com mais de 10.000 mortos, cerca de 20.000 deficientes físicos e ainda, possivelmente, 140.000 neuróticos de guerra, rara é a família portuguesa – salvo os ricos e os influentes do antigo regime e não pouca das mais conhecidas famílias da oposição – que não foi ferida pela Guerra Colonial. (TEIXEIRA, 1998, p.88)

Para o soldado português recrutado, essa experiência traumática é responsável por muitas conseqüências que se estendem até hoje, sobretudo, em se tratando de três aspectos que se relacionam: “o alcoolismo, a PTSD (Perturbação Pós-Stress Traumático) e o rompimento da comunicabilidade/integração, tanto no plano coletivo quanto no pessoal.” (KELM, 2005, p.139) Somados a isto, um sentimento de que a experiência vivenciada é algo incomunicável.

Após longos anos da experimentação da guerra, portanto, a derrota portuguesa representou o fim definitivo da odisséia imperial lusitana e o definitivo “regresso das caravelas” (TEIXEIRA, 1998, p.29). Para o soldado que embarcou para a guerra, a experiência em terras africanas representa um acontecimento ímpar em sua existência. Vivendo em um cenário de pesadelo e de beleza, ele prestou, em média, dois anos e meio de comissão, tendo que suportar “o isolamento e o sentimento de abandono, a tensão nervosa, o cansaço psicológico, a saturação, o mau abastecimento...” (TEIXEIRA, 1998, p.46)


3. MEMÓRIA E NARRAÇÃO N’OS CUS DE JUDAS

António Lobo Antunes (1942) iniciou sua carreira militar a 06 de janeiro de 1970. Já no ano seguinte, embarcou para Angola para viver aquilo que, segundo ele próprio afirma, representa a “experiência mais dolorosa” da sua vida. Em Angola, Lobo Antunes atuou como médico junto ao exército português. Após concluir sua passagem, o escritor retornou a Portugal em março de 1973, trazendo na bagagem uma experiência viria marcar profundamente sua vida e obra. Mesmo tendo iniciado suas atividades como médico psiquiatra, em 1976, Lobo Antunes começa a escrita do primeiro trabalho literário, Memória de elefante (1979), uma das obras que compõem a trilogia de guerra na qual o escritor passa em revista a experiência bélica em África.

Os cus de Judas é a narrativa mais reconhecida dentre as três que compõem a trilogia de guerra. Na obra, um narrador-personsagem rememora os vinte e sete meses que passou em Angola durante as guerras coloniais, atuando como médico do exército português. A rememoração desse sujeito, cujo nome não é revelado, ocorre em uma noite “sem fim, espessa, densa, desesperante, desprovida de refúgios e saídas, um labirinto de angústias...” (ANTUNES, 2004, p.134), na qual ele – tomado pelo álcool – vai narrando lembranças entrecortadas por resquícios da memória da infância e de Portugal, e pelo exame da condição atual à qual se encontra. Essa narração, vale lembrar, é destinada a uma interlocutora que não se manifesta em momento algum enquanto o narrador, que é, ao mesmo tempo, narrador e protagonista, procura fazer um relato que se aproxime ao máximo da experiência vivida por ele durante a guerra.

Walter Benjamin (apud Sarlo, 2007, p.25), em face aos escombros da Primeira Guerra Mundial, observou a falência do relato devido ao esgotamento da experiência que lhe dava origem. Para ele, o choque traumático teria acabado com a experiência transmissível, uma vez que os soldados voltavam mudos da guerra. Esse trauma, de fato, seria demasiado forte para “o “minúsculo, frágil corpo humano” (BENJAMIN, 1980, p.57). Na esteira do pensamento freudiano, Jeanne Marie Gagnebin afirma que o choque traumático “fere, separa, corta ao sujeito o acesso simbólico, em particular à linguagem” (GABNEBIN, 2006, p.51). Nesse aspecto, nota-se uma subtração da linguagem, isto é, sua despotencialização em face ao vivido, presente como um dos elementos mais angustiantes da rememoração:

Nunca as palavras me pareceram tão supérfluas como nesse tempo de cinza, desprovidas do sentido que me habituara a dar-lhes, privadas de peso, de timbre, de significado, de cor, à medida que trabalhava o coto descascado de um membro ou reintroduzia numa barriga os intestinos que sobravam, nunca os protestos me surgiram tão vãos... (ANTUNES, 2007, p.45 e 46).

Por outro lado, mesmo perante um real que não pode ser totalmente traduzido para o campo do simbólico – pois existe aqui uma lacuna entre a linguagem e o real –, há um imperativo que leva o sujeito a testemunhar contra a barbárie. Ao referir-se à obra É isto um homem?, de Primo Levi, cuja narração trata da sua experiência nos campos de concentração, Sarlo afirma o seguinte: “Os que não foram assassinados não podem falar plenamente do campo de concentração; falam então porque outros morreram, e em seu lugar” (SARLO, 2007, p.34). Ora, as verdadeiras testemunhas estão ausentes: pois são os mortos. Por isso, os sobreviventes testemunham no lugar delas:

Eu estava farto da guerra, Sofia, farto da obstinada maldade da guerra e de escutar, na cama, os protestos dos camaradas assassinados que me perseguiam no meu sono, pedindo-me que os não deixasse apodrecer emparedados nos seus caixões de chumbo, inquietantes e frios como os perfis das oliveiras... [...] se erguerão no interior de mim nos seus caixões de chumbo, envolto em ligaduras sangrentas que esvoaçam, exigindo-me, nos resignados lamentos dos mortos, o que por medo lhes não dei: o grito de revolta que esperavam de mim e a insubmissão contra os senhores da guerra de Lisboa... (ANTUNES, 2007, p.148 e 164)

A súplica dos mortos para que não os deixem apodrecer é esse imperativo. É, sobretudo, aceitar as “tristes palavras apodrecidas que os mortos legam aos vivos num borbulhar de sílabas informes” (ANTUNES, 2007, p. 160). Todavia, para não condená-los a cair no esquecimento é necessário uma volta a cena da barbárie; é preciso enlutar os que lá permaneceram, silenciosos. Uma tarefa agônica que envolve o constante regresso ao cenário do trauma, pois “a narração da experiência está unida ao corpo e à voz” (Sarlo, 2007, p.24):

Outro vodka? É verdade que não acabei o meu mas neste passo da minha narrativa perturbo-me invariavelmente, que quer, foi há seis anos e perturbo-me ainda: descíamos do Luso para as Terras do Fim do Mundo, em coluna, por picadas de areia, Lucusse, Luanguinga, as companhias independentes que protegiam a construção da estrada, o deserto uniforme e feio do Leste, quimbos cercados de arame farpado em torno dos pré-fabricados dos quartéis, o silêncio do cemitério dos refeitórios, casernas de zinco a apodrecer devagar, descíamos para as Terras do Fim do Mundo, a dois mil quilómetros de Luanda, Janeiro acabava, chovia, e íamos morrer, ao lado do condutor, de boné nos olhos, o vibrar de um cigarro infinito na mão, iniciei a dolorosa aprendizagem da agonia. (ANTUNES, 2004, p.36)

Simultaneamente há, por parte do sobrevivente, uma angústia em se livrar do terrível fardo da memória, pois como afirma Aharon Appelfeld, “o testemunho do sobrevivente é, antes de mais nada, a busca de um alívio” (APPELFELD, 1988, p.84). Esse sujeito que sobrevive, por sua vez, está preso a um local onde convergem o passado e o presente, o que resulta em uma inadaptação, visto que a reconstrução de um e de outro é sempre problemática. De certo, esse local de constante desconforto é o próprio presente, pois como afirma Sarlo “o tempo próprio da lembrança é o presente: isto é, o único tempo apropriado para lembrar e, também, o tempo que a lembrança se apodera, tornando-o próprio” (Sarlo, 2007, p.10). Ou seja, não é a experiência vivida que atormenta; mas, de fato, a lembrança traumática – dos mortos! – que se apodera fixamente do presente:

Era tudo mentira e acordei, e todavia, entende, em noites como esta, em que o álcool me acentua o abandono e a solidão e me acho no fundo de um poço interior demasiado alto, demasiado estreito, demasiado liso, surge dentro de mim, tão nítida como há oito anos, a lembrança da covardia e do comodismo que cuidava afogados para sempre numa qualquer gaveta perdida da memória, e uma espécie de, como exprimir-me?, remorso, leva-me a acocorar-me num ângulo do meu quarto como um bicho acossado, branco de vergonha e de pavor, aguardando, de joelhos na boca, a manhã que não chega. (ANTUNES, 2004, p.133)


4. À GUISA DE CONCLUSÃO


De certo, é patente a relação intrínseca da obra Os cus de Judas com a experiência-limite vivida pelo escritor Lobo Antunes, entre 1971 e 1973 – período em que atuou como médico no exército de Portugal em Angola –, do mesmo modo que é inegável o fato de que as guerras coloniais tenham sido um evento assaz violento para os soldados portugueses mandados para o combate, aspecto que, como sabemos, vem sendo exposto em congressos, encontros, pesquisas, arquivos oficiais, dissertações, teses, publicações variadas, etc. Portanto, iluminados pelo pensamento de Seligmann-Silva, o qual nos diz que todo evento histórico intenso permite e exige um testemunho, devemos olhar atentamente para as narrativas portuguesas pós-guerras coloniais, visto que representam um acervo de valor literário e testemunhal caríssimo aos estudos que procuram estabelecer uma nova abordagem da produção artística e literária, em especial, daquela produzida no último século.

Vale lembrar que a atitude empreendida no exame da obra antuniana vem ao encontro das tentativas de se evitar concepções redutoras, as quais excluem exemplos singulares que, como observa Anselmo Peres Alós, são recusados “justamente pelas singularidades, particularidades e rupturas estabelecidas em relação à definição padrão” (ALÓS, 2008, p.01). Ora, não podemos negar que a obra de Lobo Antunes carrega em seu cerne a experiência individual à qual o escritor foi submetido. Experiência que é revelada – na medida em que o real consegue ser representado pelo simbólico –, por um narrador autodiegético, que encarna ao mesmo tempo narrador e protagonista, e que, ademais, pode ser considerado um alter ego do escritor Lobo Antunes, ou seja, autor e narrador: ambos ex-combatentes em Angola que voltam da guerra para retomar as atividades de psiquiatria.

Portanto, pensar a literatura portuguesa produzida após o final da guerra é, sob esse viés, pensar os limites e as possibilidades de representação – ficcional ou não –, acerca do episódio mais expressivo ocorrido na sociedade portuguesa do século XX; e isso significa observá-lo em seus diversos níveis, incluindo históricos, psicológicos, sociais, culturais, etc., e em suas relações. Se a literatura de testemunho nasce, sobretudo, no século das perseguições, genocídios, brutalidades, entre outros, os textos críticos podem – e devem – ser disponibilizados para os estudos das diversas literaturas onde o teor testemunhal se manifesta de forma lúcida, como é o caso da literatura portuguesa escrita por ex-combatentes das guerras coloniais; significando, ainda, pensá-la, indiferente às suas singularidades que a exclui de categorizações mais radicais, mas, antes de tudo, pensá-la no que tange aos estudos acerca da literatura e do testemunho, e suas implicações para os estudos literários.


5. REFERÊNCIAS


APPELFELD, Aharon. After the Holocaust. In: LANG, B. (org.). Writing and the Holocaust. Nova Iorque, Londres: Holmes & Meier, 1988.
BENJAMIN, Walter; HORKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor W.; HABERMAS, Jürgen; [trad.] GRÜNNEWALD, José Lino... [et al.]. Obras escolhidas. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
GOMES, Carlos de Matos. Forças Armadas e o regime, o ovo e a serpente. In: I Congresso Internacional sobre a Guerra Colonial. Universidade de Lisboa, 2000, Lisboa. Livro de Actas. TEIXEIRA, Rui de Azevedo (Org.) A guerra colonial: realidade e ficção. Lisboa: Notícias, 2001, p.29-36.
KELM, Miriam Denise. Quando a mulher se inscreve em meio à guerra (contributos da voz autoral feminina na representação ficcional das guerras coloniais portuguesas), tese de doutorado PUC-RS, 2005.
PENNA, João Camillo. Este corpo, esta dor, esta fome: notas sobre o testemunho hispanoamericano. In: SELIGMANN-SILVA, Márcio, (org.). História, memória, literatura. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003.
SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG, 2007.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. (org.) História, memória e literatura – o testemunho na era das catástrofes. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003.
TEIXEIRA, Rui de Azevedo. A guerra colonial e o romance português. Agonia e catarse. Lisboa: Notícias, 1998.

NARRAR A MEMÓRIA DO TRAUMA:
A LITERATURA DE TESTEMUNHO E O CASO OS CUS DE JUDAS*
* Artigo apresentado no IX Seminário Internacional em Letras - Relações dialógicas em língua e literatura, Unifra/2009


Rafael Nunes Ferreira
(Universidade Federal do Pampa - Unipampa)



INTRODUÇÃO

Catástrofe, memória e representação são signos intimamente relacionados dentro de uma vasta coletânea de obras literárias de cunho testemunhal nascida, sobretudo, a partir do acúmulo de episódios bélicos no século XX, que teve princípio com a I Guerra Mundial. Desde então, no mundo inteiro, muitos desses sobreviventes/testemunhas passaram a narrar a sua experiência por meio da ficcionalidade, sejam eles sobreviventes/testemunhas da Shoah , das ditaduras militares na América Latina ou das Guerras Coloniais Portuguesas ─ apenas para citar três momentos da extensa lista de catástrofes que provocaram rupturas e efeitos devastadores em centenas de milhares de pessoas. Trata-se de obras ficcionais que se inserem dentro da denominada literatura de testemunho.
A literatura de testemunho, segundo Seligmann-Silva (2003), trata-se de uma “nova abordagem da produção literária e artística” (SELIGMANN-SILA, 2003, p.07), não entendida apenas como representação de algo ou expressão de sentimentos. Refere-se, ainda, a um campo de estudos interdisciplinar, abrangendo, pois, áreas como a história, a psicanálise, a sociologia, a própria literatura, etc. Seligmann-Silva afirma que “a uma era de catástrofes corresponde um tempo de testemunhos” (SELIGMANN-SILVA, 2007, p.33). Nesse sentido, o século XX revelou-se um território sui generis para o surgimento dessa literatura testemunhal, que compreende o relato de uma experiência-limite vivida pelo escritor, onde é preciso muitas vezes recordar e esquecer.
No presente artigo, pretendemos analisar, à luz da teoria acerca da literatura de testemunho, a obra Os cus de Judas (1979), escrita pelo português António Lobo Antunes, pertencente a uma trilogia de guerra na qual o escritor retrata o período em que vivenciou a experiência da Guerra Colonial em Angola – anfiteatro primeiro da guerra entre portugueses e africanos –, durante os anos de 1971 a 1974, perfazendo 13 anos de sofrimento que causaram a morte de dezenas de milhares de pessoas, militares e civis.

A GUERRA COLONIAL

Entre a década de 1950 e início da década de 1960, inúmeras manifestações em prol da independência das colônias ultramarinas ganharam força, sobretudo, em três frentes: Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Em oposição a essas manifestações, o governo português, chefiado por António de Oliveira Salazar, fundado na mística imperial e buscando reforçar as ligações entre a Metrópole e as colônias , responde militar e paramilitarmente provocando inúmeros episódios de morticínio nas colônias portuguesas no Ultramar.
Nesse espaço de tensão, surgem os primeiros eventos violentos cujos efeitos serão irreversíveis: em 1961, ações de libertação culminam no confronto que resultou no massacre da Baixa do Cassange e no 04 de fevereiro – data que simbolizou o início da luta armada. Mais tarde, dão-se início as guerrilhas na Guiné-Bissau, em 1963, e Moçambique, em 1964. O governo salazarista, por sua vez, cria uma intervenção militar denominada “Para Angola e em força”, a qual prevê mobilização urgente, deslocamento significativo de soldados, atuação incisiva e uma resolução final em curto prazo nas operações. Inicia-se, assim, um violento e infreável processo de independência.
O término da guerra dá-se após mais de uma década de combate, através de um movimento revolucionário surgido no seio das Forças Armadas, culminando também no fim do regime conservador que esteve à frente de Portugal por quase cinqüenta anos. Assim, na madrugada de 25 de abril de 1974, militares de vários locais do país ocuparam, de forma pacífica, pontos estratégicos de Lisboa, ocorrendo, horas mais tarde, a rendição do então presidente Marcelo Caetano, sucessor de Domingos Oliveira Salazar no poder.
Com efeito, a Guerra Colonial deixou na memória lusitana um saldo extremamente negativo, qual seja, mais de um milhão de portugueses recrutados, cerca de dez mil mortos em combate, vinte e cinco mil feridos, além de uma experiência da guerra que se manifestará a partir de três aspectos, quase sempre interligados: o alcoolismo, o estado de saúde comprometido por Perturbação do Stress Pós-Traumático – PTSD, e, por fim, o rompimento da comunicabilidade, seja no plano coletivo seja no plano pessoal. Nas palavras de Teixeira,

...rara é a família portuguesa ─ salvo os ricos e os influentes do antigo regime e não poucas das mais conhecidas famílias da oposição ─ que não foi ferida peça Guerra Colonial. E se os custos humanos foram de grandes dimensões para um pequeno velho país de menos de 10 milhões de habitantes, as perdas materiais atingiram um nível próximo da ruptura econômica (TEIXEIRA, 1998, p.88).

LOBO ANTUNES E A GUERRA COLONIAL

António Lobo Antunes nasceu em 1º de setembro de 1942, na cidade de Lisboa. Proveniente de uma família da alta burguesia portuguesa, licenciou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa, com especialização em Psiquiatria. Exerceu a profissão de psiquiatra, paralelamente à de escritor, no Hospital Miguel Bombarda, localizado na capital portuguesa, até meados da década de oitenta, dedicando-se a partir de então exclusivamente às atividades de escritor.
Durante a Guerra Colonial em Angola, Lobo Antunes atuou como clínico geral. Em síntese, sua carreira militar durou cerca de 03 anos: foi recrutado em 06 de Janeiro de 1970 a fim de cumprir o serviço militar, no posto de alferes miliciano, mais tarde promovido a tenente. Já em 06 de Janeiro de 1971, embarcou para Angola, permanecendo até março de 1973, perfazendo vinte e sete meses vivendo em um dos palcos da guerra na África portuguesa. Experiência que acabaria por marcar densa e profundamente toda sua obra literária.
Ao regressar da guerra, Lobo Antunes retomou seu trabalho como psiquiatra e deu início, em 1979, à atividade de escritor ao lançar a obra Memória de elefante, primeiro romance de uma trilogia no qual apresenta o narrador-personagem (um médico psiquiatra) que, após voltar da guerra, retoma seu trabalho como funcionário do hospital lisboeta Miguel Bombarda. No mesmo ano, Lobo Antunes ainda publica seu segundo romance, Os cus de Judas. Na obra, o narrador-personagem relata a uma interlocutora desconhecida sua experiência como soldado português na Guerra Colonial em Angola. Já no ano seguinte, em 1980, o escritor conclui a trilogia com a publicação de Conhecimento do inferno, onde igualmente nos deparamos com o médico que narra suas experiências de guerra em território angolano.
Após a publicação da trilogia, Lobo Antunes lançou mais vinte livros durante os anos de 1981 a 2008, entre romance, crônica, conto e poesia, além de publicar ensaios, artigos e crônicas em jornais e revistas de literatura, arte, etc. A temática da Guerra Colonial é uma constante na obra do escritor português, juntamente com outras questões que se referem ou se reportam a todo um processo de transformação vivido pelo povo português.

OS CUS DE JUDAS SOB O SIGNO DO TESTEMUNHO

No século XX, enquanto representação cultural e memorial de um período assinalado por catástrofes, a literatura não poderia deixar de expressar de algum modo essa situação histórica característica, recaindo, desta forma, em um terreno fértil para o surgimento do fenômeno literário típico da segunda metade do século, a literatura de testemunho – modalidade de literatura em grande parte escrita por sobreviventes de catástrofes, onde autor e fatos aparecem de modo fragmentado. Para ilustrar, podemos citar escritores como Primo Levi, Jorge Semprun, Paul Celan, entre outros.
Nessa esteira, o romance português contemporâneo passou a incorporar em sua temática a memória do trauma sob viés do testemunho dos sobreviventes da guerra, sobretudo, após o fim das guerras coloniais portuguesas e através da obra ficcional de escritores que estiveram na África durante o período de enfrentamento bélico entre africanos e portugueses. Entre eles, podemos citar Lídia Jorge, João de Melo, Jorge Martins Garcia e António Lobo Antunes. Este último, com uma vasta obra reconhecida e aclamada pela crítica que lhe propiciou uma série de premiações pelo mundo inteiro. A obra Os cus de Judas, em particular, ganha destaque entre os títulos da bibliografia ficcional antuniana que trata da sua experiência na Guerra Colonial.
Lobo Antunes renunciou ao estatuto do silêncio para testemunhar, pela via ficcional, a experiência-limite que viveu em Angola, utilizando-se de um narrador-personagem que, entre reminiscências puerícias e meditações acerca da condição em que se encontra, narra, de forma fragmentada, os anos de temor e angústia inumanos que carrega na memória. Uma recordação que ecoa intensamente dentro de si, de tal modo que é como se o narrador-personagem ainda estivesse presente naquele tempo-espaço rememorado. Nessa esteira, Fiuza (2007) afirma que, ao narrar a experiência, percebemos que a relação testemunhal funde-se na presença real do enunciador na cena, unindo, assim, corpo e voz:

...foi há seis anos e perturbo-me ainda: descíamos do Luso para as Terras do Fim do Mundo, em coluna, por picadas de areia, Lucusse, Luanguinga, as companhias independentes que protegiam a construção da estrada...
...e fiquei parado no quarto com a cabeça cheia ainda dos ecos da guerra, do som dos tiros e do silêncio indignado dos mortos... [...] A voz gorda do tenente, rebolando de muito longe repetia Pôr o selo na patroa... [...] ...os capitães vindos dos sargentos jogavam as damas na messes, o Ferreira cicatrizava o coto da perna que já não tinha...
...e eu continuo em Angola como há oito anos atrás, e despeço-me do soba-alfaiate junto à máquina de costuma pré-histórica, coberta agora de um espesso musgo de ferrugem...
Ainda estou lá de certo modo, sentado ao lado do condutor numa das ao lado da coluna, a pular pelas picadas de areia a caminho de Malanje. (ANTUNES, 2007, p. 36, 86, 119 e 122
)

Para Beatriz Sarlo, “poderíamos dizer que o passado se faz presente. [...] ...o tempo próprio da lembrança é o presente: isto é, o único tempo apropriado para lembrar e, também, o tempo do qual a lembrança se apodera, tornando-o próprio” (SARLO, 2007, p.10). Mas a literatura de testemunho assenta um problema diante do ato de narrar a experiência do trauma. Seligmann-Silva afirma que “a narrativa testemunhal é marcada por um gap entre evento e discurso” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.31). Testemunha-se um excesso de realidade e o próprio testemunho enquanto narração testemunha uma falha: a cisão entre a linguagem e o evento, a impossibilidade de recobrir a experiência vivida com o verbal: “nos apercebemos de que não existe carne nos nossos gestos nem som nas palavras que dizemos...” (ANTUNES, 2007, p.59).
Para Freud (apud SELIGMANN-SILVA, 2007, p.33), a experiência traumática não pode ser totalmente assimilada enquanto ocorre. Nesse sentido, o testemunho seria a narração não tanto desses fatos violentos, mas da resistência à compreensão dos mesmos. A linguagem, segundo Seligmann-Silva (2007), tenta cercar e dar limites àquilo que não foi submetido a uma forma no ato de sua recepção. Daí Freud destaca a constante repetição, alucinatória, por parte do “traumatizado” da cena violenta: a história do trauma é a história de um choque violento, mas também de um desencontro com o real. A incapacidade de simbolizá-la determina a repetição e a constante “posterioridade”, a volta à cena, ou seja, é o passado que se faz presente.
Assim, podemos pensar essa “repetição” do trauma como signo do constante regresso de Lobo Antunes ao palco da Guerra Colonial que, de fato, exigiu do autor o esforço vultoso que o levou a produzir a trilogia Memória de elefante, Os cus de Judas e Conhecimento do Inferno, dedicada exclusivamente à memória de guerra. Além disso, como afirma Antunes: “Quem veio até aqui não consegue voltar o mesmo...” (ANTUNES, 2007, p.123). E não consegue voltar o mesmo tanto porque carrega consigo a carga de uma experiência-limite não digerida quanto pela constante busca em dar-lhe forma, já que o vivido transborda sua capacidade de articulação verbal, provocando um sentindo de inverossimilhança.
De tal modo, a literatura de testemunho: uma literatura que expõe o comportamento e as transformações (físicas e psíquicas) dos homens durante a guerra, carrega consigo a impressão da irrealidade dos fatos, pois “tudo é real menos a guerra que não existiu nunca: jamais houve colônias, nem fascismo, nem Salazar, nem Tarrafal, nem PIDE...” (ANTUNES, 2007, p.193 e 194). Com esse pensamento, afirma o escritor italiano Primo Levi, autor de É isto um homem?, obra em que Levi narra os anos que passara em Auschwitz-Birkenau durante a II Guerra Mundial: “Pela primeira vez, então, nos damos conta de que a nossa língua não tem palavras para esta ofensa, a aniquilação de um homem” (LEVI, 1988, p.24).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sem a pretensão de esgotar as possibilidades de análise e interpretação de Os cus de Judas, tratamos da obra antuniana no sentido de mostrar que o testemunho presente na literatura pode ser visto como um elemento que se manifesta com maior nitidez em certas produções ficcionais do que em outras – como no caso d’Os cus de Judas –, e nos permite, por conseguinte, pensar em uma nova abordagem do fato literário, na qual questionamos as possibilidades de representação da realidade, sobretudo, a partir da narração de experiências-limite.
O escritor português Lobo Antunes regressou da guerra e permitiu-se falar, dando vida e voz à ficção que testemunha a experiência da barbárie – a sujeição do homem ao inumano diante da presença do trauma na sociedade moderna. Nesse sentido, Seligmann-Silva afirma: “A literatura é chamada diante do trauma para prestar-lhe serviço” (SELIGMANN-SILVA, 2007, p.35). Em Os cus de Judas, o narrador-personagem depara-se com um cenário de guerra onde preponderam a agressividade, o medo e a angústia humanos. Desse cenário, ficará para sempre o fantasma de um passado que não passa: a vivência traumática demasiada para o testemunho ou para a transmissão.
No entanto, esse mesmo narrador-personagem busca – aprisionado a um passado que se afigura como “um almoço por digerir [que] nos chega em refluxos azedos à garganta” (ANTUNES, 2007, p.114) e diante do imperativo de narrá-lo –, dar significado (ou forma) a essa experiência vivida, a qual não pôde ser totalmente assimilada e que reside eternamente no presente. Destarte, afirma Seligmann-Silva: “O testemunho alimenta-se, como vimos, da necessidade de narrar e dos limites dessa narração...” (SELIGMANN-SILVA, 2003, p.40).

REFERÊNCIAS

ANTUNES, António Lobo. Os Cus de Judas. 2.ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
APPELFELD, A. After the holocaust. In: LANG, B. (Org.). Writing and the holocaust. New York, Londres: Holmes & Meier, 1988.
FUIZA, Marcos. Literatura e testemunho. In: Literatura e violência: o lugar da memória traumática, Rio de Janeiro: Gândara, Instituto Camões, PUC-RIO, nº. 2, 2007, p. 159 a 168.
KEHL, Maria Rita. Três perguntas sobre o corpo torturado. In: KEIL, Ivete & TILBURI, Márcia (Orgs.). O corpo torturado. Porto Alegre: Escritos, 2004.
LEAL, Lara. O longo aprendizado da agonia: a epopéia lírica de Lobo Antunes. In: Literatura e violência: o lugar da memória traumática, Rio de Janeiro: Gândara, Instituto Camões, PUC-RIO, nº. 2, 2007, p.127 a 137.
LEVI, Primo. É isto um homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988.
MARCO, Valéria de. Questões sobre a literatura de testemunho. In: Língua e Literatura, n.º 25, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo: Humanitas, 1999, p.153 a 167.
OLIVEIRA, Raquel Trentin. A inversão do relato de guerra no romance português contemporâneo. In: Revista das Letras, n.º 67, Curitiba: Editora UFPR, set./dez. 2005, p.109 a 120.
SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. (Org.) História, memória e literatura – o testemunho na era das catástrofes. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. Testemunhos da barbárie. In: Revista EntreLivros, nº 28, Ano 3, 2007, p. 32 a 35.
TEIXEIRA, Rui de Azevedo. A guerra colonial e o romance português. Agonia e catarse, Lisboa: Notícias, 1998.

A representação literária de eventos-limite: a exemplaridade das guerras coloniais portuguesas





A GUERRA COLONIAL SOB A ÓTICA LITERÁRIA DE LOBO ANTUNES





Rafael Nunes Ferreira
Universidade Federal do Pampa - UNIPAMPA



A leitura d’Os cus de Judas é algo visceral. O escritor português António Lobo Antunes, que vivera os últimos anos da Guerra Colonial em Angola, atuando como médico do Exército português, apresenta-nos um relato angustiante e revelador da barbárie cometida em África. A leitura difere em muito daquela dos livros de História, que tratam da guerra de maneira neutralizante e genérica, onde - não raro - números, estatísticas que reduzem a vida à quase nada, são supervalorizados em detrimento de fatores mais humanos, como o sofrimento de um povo em combate, as perdas e as conseqüências causadas pela guerra, enfim.

Os cus de Judas é uma obra que revela não só as mazelas de um povo colonizado que luta por independência, mas desmascara uma realidade manipulada por um regime fascista que via na violência a única forma de poder, um regime que agia desumanamente para atingir seus objetivos. Embora o próprio autor afirme que a experiência da guerra é algo inverossímil de se narrar, Os cus de Judas é um espelho do que é “o peso insuportável da solidão”, “de uma angústia indecifrável”, “de lançar-se em nome de ideais veementes e imbecis, em dois anos de angústia, de insegurança e de morte”.

Em Os cus de Judas, narra-se o sofrimento de mentes atormentas pela presença da morte a cercar, dia e noite, vidas comuns que se vêem, de repente, jogados em um labirinto aterrorizante que não parece ter termo:

As madrugadas, de resto, são o meu tormento, gordurosas, geladas, azedas, repletas de amargura e de rancor. Nada vive ainda e, todavia, uma ameaça indecifrável ganha corpo, aproxima-se, persegue-nos, incha-nos no peito, impede-nos de respirar livremente, as pregas do travesseiro petrificam-se, os móveis, agudos, hostilizam-nos... e no interior de nós, teimoso, insistente, dolorosamente lento, caminha este comboio que atravessa Angola, de Nova Lisboa ao Luso, a transbordar de homens fardados que cabeceiam contra as janelas à procura de um sono impossível. (ANTUNES, 2007, p.33)

A realidade sobre a Guerra Colonial, desde sempre mascarada pelo regime salazarista sob a maquilagem de ideais anacrônicos de um falso imperialismo, é veementemente contestada por Lobo Antunes que vê no Estado Novo “uma constante aberração”. Uma guerra sem sentido, de perdas e de traumas que jamais serão reavidos, pois, como afirma Lobo Antunes, jamais se volta o mesmo homem de uma guerra. Os Cus de Judas é o relato de quem viveu a guerra para depois contá-la: os fatos narrados retratam a frieza máxima com que o ser humano pode tratar o semelhante. Mortos decapitados, corpos despedaçados por minas, homens cavando a própria sepultura: situações-limites que levam o indivíduo ao abismo de uma existência desumana.

Assim, Lobo Antunes atinge-nos profunda e psicologicamente com um texto direto e sem meias-palavras, numa amálgama de lembranças de uma infância onde o fardo imperialista se faz presente, como o prenúncio de um vulcão em erupção, misturado a lembranças estúpidas de uma guerra estúpida e de um presente melancólico decorrente de um estado mental corrompido pelas barbáries em África. De fato, Lobo Antunes procura atingir na palavra a precisão, pois em Os cus de Judas cada termo, cada frase e cada parágrafo possuem uma conexão exata a causar no leitor a sensação de se estar ouvindo a história no exato momento em que ela é vivida.
REFERÊNCIAS:
ANTUNES, António Lobo. Os cus de Judas. Alfaguara Brasil, 2007.