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Don Quixote and the windmills
by Windmill Theatre Company

A special thanks to Daniela (Don Quixote),
Tanane (Sancho Pança) and Gladimir (the narrator)

CHAPTER VIII

"Of the good fortune which the valiant Don Quixote had in the terrible and undreamt-of adventure of the windmills, with other occurrences worthy to be fitly recorded."


“What giants?” said Sancho Panza.“Those thou seest there,” answered his master, “with the longarms, and some have them nearly two leagues long.”“Look, your worship,” said Sancho; “what we see there are notgiants but windmills, and what seem to be their arms are the sailsthat turned by the wind make the millstone go.”

O HOMEM DE LA MANCHA [1977]

O Homem de La Mancha é um musical de 1977, estrelado por Paulo Autran, baseado no livro O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes y Saavedra. Em maio de 2002, uma impressionante comissão de críticos literários de várias lugares do mundo escolheu o livro Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), como a melhor obra de ficção de todos os tempos.
Segundo Voltaire Schilling, ao tempo em que narrava as aventuras do Cavaleiro da Triste Figura em ritmo dos romances da cavalaria, Miguel de Cervantes desgostoso com o sucesso daquele tipo de gênero literário junto ao grande público, realizou uma das maiores sátiras aos preceitos que regiam as histórias fantasiosas daqueles heróis de fancaria.

Tópicos sobre clássicos da literatura ocidental:
O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes Saavedra

Rafael Nunes Ferreira
Universidade Federal do Pampa

Retomando o conceito de paródia: do grego paroidía, para, oidê, contra-canto, canto paralelo, pelo latim, parodia. Segundo Massaud Moisés, em seu Dicionário de termos literários, a paródia designa toda composição literária que imita, cômica ou satiricamente, o tema e/ou a forma de outra obra, com a finalidade de ridicularizar uma tendência ou um estilo que, por qualquer motivo, se torne apreciado ou dominante. Conforme o sentido do prefixo “para”, a parodia pode conter oposição (contracanto) ou ser uma obra criada à semelhança da outra (canto paralelo). Apresenta uma intenção negativa no primeiro, e torna-se positiva no segundo.

O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha é um exemplo clássico no que se refere à parodia acerca das novelas de cavalaria medievais, de carácter místico e simbólico, que narram aventuras penetradas de espiritualidade cristã e subordinam-se a um ideal místico.

Na obra de Cervantes, a cena em que Dom Quixote ataca alguns odres de vinho, achando que está a duelar contra gigantes, é exemplar no que se refere aos episódios fantásticos em que o cavaleiro retratado nas novelas de cavalaria originais, vence gigantes com apenas um lance de espada, ou quando, sem se cansar, derrota, sozinho, um exército inteiro, como podemos observar parodiado em outro momento, quando o velho fidalgo confunde um rebanho de ovelhas com um exército inimigo.

***

No capítulo XIX do primeiro livro, Sancho atribui um codinome ao seu amo, dando a Dom Quixote o apelido O Cavaleiro da Triste Figura, decorrente do aspecto que possuía o velho fidalgo naquele momento. O título sustenta-se à medida que, ao transcorrer das aventuras do cavaleiro andante, suas façanhas acabam tendo, muitas vezes, um desfecho infeliz, como, por exemplo, no capítulo XXII, intitulado Da liberdade que deu Dom Quixote a muitos infelizes, que, contra a sua vontade, eram levados aonde quereriam ir, também do primeiro livro, em que Dom Quixote, ao libertar doze homens que seguiam escoltados e algemados, condenados pelos seus crimes a servirem El-Rei, acaba recebendo como recompensa uma chuva de pedradas que deixam o fidalgo “desgostoso por se ver tão maltratado pelos mesmos a quem tamanho bem fizera.”

***

Segundo Otto Maria Carpeaux, em História da Literatura Ocidental, Cervantes utilizada uma estratégia narrativa que se vale do contraste, no que ele denomina “método cervantino do contraste”. Para satirizar as novelas de cavalaria, Cervantes faz uso do método de contraste, como podemos notar a partir da figura de algumas das personagens: Alonjo Quijano, um fidalgo cinqüentão e sem força, que se opõe aos cavaleiros andantes, nobres e de forte vigor físico. Sancho Pança, um analfabeto motivado pela recompensa de uma ilha, que contrasta com os jovens de boas famílias, educados e que buscavam o ofício de escudeiro para, posteriormente, sagrarem-se também cavaleiros. Ou, por fim, na princesa Dulcinéia del Toboso, uma camponesa feia e gorda, que contraria muito a imagem das belas princesas dos romances de cavalaria.


A INFLUÊNCIA QUIXOTESCA AO REDOR DO MUNDO

Mundialmente, a obra Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes foi lida por distintos escritores da literatura universal, de diferentes nacionalidades; e, não raro, podemos hoje observar traços quixotescos em obras consagradas no mundo inteiro. Façamos, desta forma, uma breve tour por alguns dos escritores cuja obra cervantina repercutiu em seu trabalho.

O escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) era um grande conhecedor e admirador da obra de Miguel de Cervantes. Tendo escrito três ensaios, ele chamava atenção especialmente para a mistura entre “o mundo do leitor e o mundo do livro”. Trata-se da narrativa dentro da narrativa – presente no cerne de Quixote – assim como n’As Mil e Uma Noites. Já no conto Pierre Menard, autor do Quixote, Borges narra a história do padre francês Pierre Menard, que deseja reescrever a história de um clássico da literatura para os leitores do século XX. Assim, o escritor argentino “opera uma inversão ficcional típica de sua escritura labiríntica e especular ao apresentar, como verdade, a existência de um outro autor para a obra de Cervantes – ou, ao menos, de trechos dela” (DAMAZIO, 2006, p. 82).

O texto, para confundir o leitor sobre a continuidade do tempo e a veracidade da história, ou sobre o conflito entre a veracidade do mundo literário e as idiossincrasias do mundo real, mistura ficção e ensaio. Como poderia o padre francês escrever retroativamente trechos de uma obra do século XVII? Pergunte-se ainda: como ficou essa nova versão? Exatamente igual... é a desconcertante resposta. Pierre Menard reescreve toda a obra, linha por linha, parágrafo por parágrafo; repetindo – inclusive – os pontos, as vírgulas e os todos os erros narrativos, estilísticos e gramaticais da primeira edição. Assim, “o nó desse enigma borgiano está no detalhe de que Menard não escreveu “uma versão” do Quixote, mas o próprio texto, em pleno século XX. Nessa perspectiva assombrosa, Cervantes seria uma criação de Menard... [...]” (DAMAZIO, 2006, p.82).

Desta forma, não foi necessário que se modificasse o texto original, a fim de que surgisse um outro em seu lugar; pois, basta que o tempo passe, que novas idéias surjam, novos modismos, estruturas sociais e econômicas apareçam, para que se forme um novo leitor, responsável por uma nova leitura, completamente diferente da feita anteriormente. Assim, a obra, ano após ano, seria continuamente reescrita, não por quem a escreveu, mas por aqueles que a lêem.

A genialidade de Borges vai além, deixando-nos categoricamente enredados nos labirintos da ficção, ou ficções, como prefere o poeta argentino: o personagem fictício Pierre Menard seria o autor verdadeiro de Quixote, dentro da realidade ficcional do conto em que o Borges real dialoga com o Menard engendrado por Borges sobre os meandros da elaboração narrativa da obra de Cervantes, entendida agora como de autoria de Menard.

O russos também não ficaram de fora da vasta lista dos que absorveram a idéia de luta entre o sonho e a realidade, sobre tudo com o escritor Fiódor Dostoiévski (1821-1881), autor de O Idiota, Os Demônios, Crime e Castigo, entre outros. O escritor chegou a afirmar que:

“Não existe nada de mais profundo e mais poderoso em todo o mundo do que esta peça de ficção. E ainda expressão final e maior do pensamento humano, a mais amarga ironia de que um ser humano é capaz de expressar. E se o mundo viesse a acabar e a pessoa fosse ali inquirida: “Bem, você entendeu alguma coisa de sua vida na Terra e tirou dela alguma conclusão?” A pessoa poderia silenciosamente mostrar o Dom Quixote e dizer: “Aqui está a minha conclusão acerca da vida. Você pode condenar-me por ela.”

Em O Idiota, publicado em 1868, romance intenso sobre os sentimentos humanos que percorre os mais sórdidos e os mais elevados, e que expõem um painel devastador de tipos e ambições, Dostoiévski inspira-se no personagem cervantino para conceber o protagonista Míchkin, um príncipe que vive na decadência e solidão, entregue às incertezas da vida. A intenção do escritor russo é retratar “um homem positivamente bom”, como ele mesmo refere-se em uma carta à sobrinha, afirmando ainda que:

"Não há nada mais difícil no mundo e isso é especialmente verdadeiro hoje em dia. Todos os escritores, não somente os nossos, mas também os europeus, que alguma vez tentaram retratar o positivamente bom, sempre fracassaram. Porque o problema é infinito, o perfeito é um ideal, e este ideal, seja dos nossos, ou do europeu civilizado, está ainda longe de ter sido trabalhado. Existe apenas uma personagem positivamente boa no mundo: Cristo. De tal modo que fenômeno desta ilimitadamente, infinitamente boa personagem é já em si mesma um milagre infinito. Devo somente mencionar que das personagens na literatura cristã, a mais completa é o Dom Quixote... Mas ele é bom porque ao mesmo tempo ele é ridículo.”

O personagem dostoievskiano representa o espírito imaculado que se encontra levado aos desvios e precipícios de uma detestável e desencantadora realidade, e que acaba por envolver-se em um triângulo amoroso perturbador com o libertino Rogojin e a graciosa Nastácia Filipovnea. A bondade de Míchkin é posta à prova e escarnecida. Dostoiévski, com brilhantismo incomum, afronta temas cruciais que moldam a mentalidade da vida contemporânea, tais como nacionalismo e universalismo, misticismo e materialismo; paixão e razão, barbarismo e senso de humanidade. Assim, no solo instável da literatura, Dostoievski faz do ficcional o mecanismo que irá fazer o homem refletir sobre suas angústias mais profundas.

Já o grande romancista russo Ivan Turgueniev (1818-1883), figura respeitável na literatura ocidental, escreve um ensaio intitulado Dom Quixote e Hamlet. Trata-se de um ensaio sobre esses dois personagens no qual o escritor russo chama a atenção exatamente para o que há de exteriorização de um personagem virado para fora, como Dom Quixote, e outro para dentro, como o pesaroso e meditativo Hamlet.

Na ficção alemã, podemos citar Thomas Mann (1875-1955), autor de obras como Doutor Fausto e A Montanha Mágica. O escritor alemão sofreu uma grande influência de Miguel de Cervantes e de Dom Quixote, deste modo, não é de se admirar que na sua obra de Thomas Mann, ironia e humor estejam tão presentes. Em um ensaio denominado A Bordo com Dom Quixote, Thomas Mann narra a viagem que fez de barco, de Hamburgo a Nova Iorque, quando o escritor teve que se exilar nos Estados Unidos devido à perseguição nazista.

O escritor conta que levou consigo uma tradução para o alemão de Dom Quixote. No decorrer da viagem, Thomas Mann vai lendo a obra e fazendo uma espécie de diário de bordo, no qual acaba, de vez em quando, referindo-se à leitura da obra cervantina. De fato, foi de tal maneira obsessiva aquela leitura que, ao se aproximar de Nova Iorque, o escritor alemão faz a seguinte anotação: “Ontem à noite, sonhei com Dom Quixote. Ele tinha um enorme bigode, magro, de olhos cavados”. Muitos críticos compararam, aqui, a figura de Dom Quixote vista por Thomas Mann em seu sonho com a do filosofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900).

O famoso romancista, ensaísta, jornalista e político peruano Mario Vargas Llosa (1936), um dos maiores escritores de língua espanhola, autor de Batismo de Fogo - “La cuidad y los perros” - (1963), afirmou que: “o sonho que converte Alonso Quijano em Dom Quixote de la Mancha não consiste em reatualizar o passado, mas em algo bem mais ambicioso: realizar o mito, transformar a ficção em história viva.” Miguel de Cervantes – com engenho – satiriza impiedosamente os livros de cavalaria, sob a aparente ingenuidade desses contos clássicos de aventuras; esse é o grande tema da obra que, segundo Llosa, “é a ficção, sua razão de ser e o modo como ela, ao infiltrar-se na vida, vai modelando-a e transformando-a”.

Por último, o escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880), no romance Madame Bovary, publicado em 1857, apresenta-nos Emma Bovary, personagem feminina influenciada pelo espírito quixotesco. Flaubert concebe – em um ambiente influenciado pelas idéias positivistas, no qual a ficção aspirava a tratar a realidade de modo quase científico –, uma personagem “sonhadora e perturbada por uma visão livresca e idealizadora do mundo” (DAMAZIO, 2006, p. 78). Emma Bovary – um dom quixote de saias – possui uma imaginação exaltada, identificada com heroínas apaixonadas e educada nos romances; recusa a aceitar a realidade que a cerca: sua vida medíocre em uma cidadezinha francesa. Da mesma forma como ela recusa o casamento enfadonho com o médico interiorano Charles Bovary. A personagem de Flaubert aproxima-se do fidalgo Dom Quixote em sua busca insana por um amor ideal e aventureiro. Ficção e realidade, portanto, confundem-se na alma de ambos os personagens.
Rafael Nunes Ferreira
Universidade Federal do Pampa - Unipampa

REFERÊNCIAS:

CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental. Rio de Janeiro, Alhambra, 1987.
WATT, Ian. [trad.] PONTES, Mário. Mitos do Individualismo Moderno. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997.
HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo, Martins Fontes, 2003.
SAAVEDRA, Miguel de Cervantes. [Trad.] AMADO, Eugênio. O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha – Volume I. Belo Horizonte-Rio de Janeiro, Itatiaia, 1997.
SAAVEDRA, Miguel de Cervantes. [Trad.] AMADO, Eugênio. O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha – Volume II. Belo Horizonte-Rio de Janeiro, Itatiaia, 1997.
RAMOS, Mário Amora. Dom Quixote – Quatro Séculos de Modernidade. São Paulo, Novo Século Editora, 2005.
PINTO, Manuel da Costa. DVD: Mitos Literários do Ocidente e a Modernidade. Cultura-Espaço Cultural CPFL.
BETTO, frei. A Razão Crítica de Cervantes através da Loucura de Dom Quixote. Artigo publicado no sítio www.voltairenet.org, São Paulo, 2005.
Sítio http://www.wikipedia.org/.
ANTUNES, Álvaro de Araújo. Artificiosos e Verdadeiros: Leitores e Práticas de Leitura em Dom Quixote de la Mancha.
VALVERDE, Maria de la Concepctión Piñero. Notas sobre a Loucura Quixotesca em Quincas Borba.
PITOL, Celso Augusto Uequed. Dez Maneiras de Falar sobre Dom Quixote. Ensaio publicado no sítio www.digestivocultural.com. Canoas, 2005.
Encyclopaedia Britannica – Desktop Encyclopedia
SCLIAR, Moacyr. O Caso Dom Quixote. Revista Mente e Cérebro. Edição 147, abril/2005.
Revista Entreclássicos. Edição 3: Miguel de Cervantes. Duetto. 2006.

CERVANTES E SHAKESPEARE: VOZES SOCIAIS
MARCADAS PELO TEMPO


Rafael Nunes Ferreira
Universidade Federal do Pampa - UNIPAMPA

“Num lugar da Mancha, cujo nome não quero lembrar, vivia, não faz muito tempo, um fidalgo, dos de lança guardada em cabide, adarga antiga, rocim frouxo, e galgo corredor” (SAAVEDRA, 1605, p. 27). Com estas palavras, dá-se início às aventuras e façanhas do fidalgo Alonso Quijano e seu fido escudeiro Sancho Pança. Como se sabe, Dom Quixote é uma das obras mais traduzidas e lidas no mundo inteiro, percorrendo, ao longo de mais de quatrocentos anos, as mais diversas culturas. Uma obra que, sem sombra de dúvidas, é composta por múltiplos elementos que a singularizam dentro da literatura universal.

Em Dom Quixote, o escritor espanhol Miguel de Cervantes, de maneira brilhante, revela-nos um retrato minudenciado da Espanha de sua época, pois que, além de apreciarmos as atrapalhadas e comoventes peripécias do fidalgo “endoidecido”, conseguimos navegar à nau do tempo e contemplar toda essa peculiar atmosfera histórica. Ler Dom Quixote, destarte, proporciona-nos uma visão da sociedade espanhola do século XVI que vivencia intensas transformações sociais, culturais, políticas e econômicas decorrentes do declínio do feudalismo e a ascensão do capitalismo como sistema econômico-social.

Nesse sentido, assim como Shakespeare na Inglaterra, percebemos em Miguel de Cervantes as mesmas inquietações de seu tempo. No ano da publicação de Dom Quixote, em 1605, Shakespeare escrevia o Rei Lear, no qual manifestava as mesmas aflições com relação àqueles tempos modernos. Em uma passagem do conde Gloucester, personagem de Rei Lear que amparava um filho interesseiro em detrimento de outro que era fiel, podemos visualizar, nitidamente, a agitação daquela época, que pode ser bem transportada para os dias atuais:

Love cools, friendship falls off, brothers divide: in the cities, mutinies; in countries, discord; in palaces, treason; and the bond cracked twixt son and father. […] We have seen the best of our time; machinations, hollowness, treachery, and all ruinous disorders follow up disquietly to our graves. [...] (SHAKESPEARE, 1605)

O amor esfria, a amizade se rompe, os irmãos se dividem: nas cidades, motins, nos campos, discórdia; nos palácios, traição; e os laços entre pai e filho rompidos. [...] Já vimos os melhores anos do nosso tempo; maquinações, futilidade, traição e todas as desordens ruinosas nos acompanham inquietantemente até nossos túmulos. [...]


Dois mestres da literatura universal, contemporâneos, vivendo em sociedades distintas, mas capazes de perceber as grandes transformações e desenvolvimentos portadores de novos problemas, cujos efeitos até hoje perduram. Quiçá o mais grave deles, o desenvolvimento bélico que despertou em Miguel de Cervantes um admirável discurso contra a “espantosa fúria destes endemoninhados instrumentos da artilharia”. Enfim...

REFERÊNCIAS:

CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental. Rio de Janeiro, Alhambra, 1987.
WATT, Ian. [trad.] PONTES, Mário. Mitos do Individualismo Moderno. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997.
HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo, Martins Fontes, 2003.
SAAVEDRA, Miguel de Cervantes. [Trad.] AMADO, Eugênio. O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha – Volume I. Belo Horizonte-Rio de Janeiro, Itatiaia, 1997.
SAAVEDRA, Miguel de Cervantes. [Trad.] AMADO, Eugênio. O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha – Volume II. Belo Horizonte-Rio de Janeiro, Itatiaia, 1997.
RAMOS, Mário Amora. Dom Quixote – Quatro Séculos de Modernidade. São Paulo, Novo Século Editora, 2005.
PINTO, Manuel da Costa. DVD: Mitos Literários do Ocidente e a Modernidade. Cultura-Espaço Cultural CPFL.
BETTO, frei. A Razão Crítica de Cervantes através da Loucura de Dom Quixote. Artigo publicado no sítio www.voltairenet.org, São Paulo, 2005.
Sítio http://www.wikipedia.org/.
ANTUNES, Álvaro de Araújo. Artificiosos e Verdadeiros: Leitores e Práticas de Leitura em Dom Quixote de la Mancha.
VALVERDE, Maria de la Concepctión Piñero. Notas sobre a Loucura Quixotesca em Quincas Borba.
PITOL, Celso Augusto Uequed. Dez Maneiras de Falar sobre Dom Quixote. Ensaio publicado no sítio www.digestivocultural.com. Canoas, 2005.
Encyclopaedia Britannica – Desktop Encyclopedia
SCLIAR, Moacyr. O Caso Dom Quixote. Revista Mente e Cérebro. Edição 147, abril/2005.
Revista Entreclássicos. Edição 3: Miguel de Cervantes. Duetto. 2006.


A VIAGEM INICIÁTICA DE MIGUEL DE CERVANTES

Rafael Nunes Ferreira
Universidade Federal do Pampa - UNIPAMPA

O autor do mito Dom Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes Saavedra, nasceu em Alcalá de Henares, perto de Madri, na Espanha (embora várias outras cidades tenham disputado seu berço), provavelmente na data de 29 de setembro de 1547, já que, à época, não era de costume manter-se registros das datas de nascimento. De fato, o que se sabe é que Miguel de Cervantes foi batizado em 09 de outubro de 1547, na Igreja de Santa Maria Maior, na cidade de Alcalá de Henares, conforme consta no primeiro livra de registros da paróquia, felizmente conservado. Filho do modesto barbeiro Rodrigo de Cervantes — que, a exemplo de seus colegas barbeiros, personagens da obra Dom Quixote, vivia de aplicar sangrias, fazer pequenas cirurgias e atuar com dentista —, e de Leonor de Cortinas. Miguel de Cervantes foi o quarto dos setes filhos que o casal teve. Assim, nascido em família sem recursos da aristocracia cavaleiresca, viveu uma vida prenhe de melancólicos sonhos frustrados.

Outro aspecto importante é que Miguel de Cervantes era gago, como ele próprio esclarece no prólogo das Novelas exemplares, obra de 1613:

Enfim, já que o tempo se foi e eu passei em branca nuvem, serei obrigado a valer-me de minha lábia, que, embora gaguejante de natureza, não o será para falar certas verdades que, embora ditas por metáforas, possam ser entendidas claramente. (SAAVEDRA, 1613)

A pretensão por aventuras provoca inúmeros dramas em sua vida. De tal modo que, aos 22 anos de idade, o escritor viaja à Itália, onde acaba trabalhando como camareiro no séqüito do Cardeal Acquaviva. Entretanto, devido à sua pobreza e insatisfeito com a função, Miguel de Cervantes alista-se como soldado raso no exército espanhol, em 1570, para lutar contra os turcos que colocavam em risco a Europa Ocidental. O soldado Miguel de Cervantes sofreu todos os dissabores e privações das campanhas.

Mas o fato mais marcante de sua vida militar ocorreu, certamente, quando de sua participação a bordo da galera “Marquesa” na investida contra os turcos, no famoso episódio da batalha naval de Lepanto, em 07 de outubro de 1971, na costa da Grécia, onde acabou gravemente ferido, no peito e na mão esquerda, ficando esta completamente inutilizada. Devido a este acidente, Miguel de Cervantes ganhou o apelido de el manco de Lepanto. Este foi seu maior momento de glória. Em várias oportunidades, ele mesmo nos conta com grande orgulho deste episódio em sua vida. No prólogo do segundo livro de Dom Quixote, por exemplo, o autor faz referência ao fato:

Se as minhas feridas não resplandecem aos olhos de quem as mira, são pelo menos estimadas na consideração dos que sabem onde foram ganhas, uma vez que o soldado melhor parece morto na batalha do que livre na fuga, e tanto tenho como certo que, se agora me propusessem e facilitassem um impossível recomeçar, antes quisera haver-me naquela prodigiosa ação de guerra, do que, são de minhas feridas sem dela nunca haver participado. (SAAVEDRA, 1615, p.12)

Miguel de Cervantes participou em outras expedições militares; cansado da vida de soldado, porém, e ansioso por rever os parentes e solicitar alguma recompensa pelos serviços prestados à nação, em 1974, decide retornar à Espanha. No entanto, durante seu regresso de Nápoles à terra natal, seu navio, a galera El Sol, vai a pique seis dias após ter deixado o porto de Nápoles, e Miguel de Cervantes acaba sendo capturado, juntamente com seu irmão, e passa cinco anos vivendo como prisioneiro, nas mãos de piratas argelinos, permanecendo em Argel até 1580. Como Miguel de Cervantes possuía importantes cartas de recomendação, pensando que se tratasse de alguma pessoa de muita importância, os piratas elevaram muito o preço de seu resgate, complicando, assim, a sua situação.

Mas Miguel de Cervantes acabou sendo solto após pagamento de seu resgate – 500 escudos de ouro –, depois de várias tentativas de fuga malogradas. Sua família e uma missão católica de Frei João Gil, da Redenção de Cativos, foi quem pagou seu resgate. A história do cativo Rui Peres de Viedma, no primeiro livro de Dom Quixote, é bem ilustrativa da experiência vivida por Miguel de Cervantes, enquanto estava no cativeiro. O autor, no trecho abaixo, provavelmente, refere-se a si mesmo, como podemos observar:

Só se saiu bem com ele um soldado espanhol chamado Fulano de tal Saavedra, o qual, apesar de ter feito coisas que ficarão na memória daquela gente por muitos anos [...] E se não fosse pela falta de tempo, eu agora contaria alguma coisa do que fez esse soldado, e que serviria para entreter-vos e maravilhar-vos muito mais do que o relato dessa minha história. (SAAVEDRA, 1997, p. 376).

De volta à casa paterna, encontra sua família na miséria e abarrotada de dívidas. Tampouco, Miguel de Cervantes consegue algum emprego digno; além disso, ao regressar à Espanha, o combatente aprisionado acaba nem recebendo medalhas nem sendo promovido, tendo que, para subsistir, engajar-se em 1581 nas tropas de Filipe II, continuando, assim, na vida militar até 1584. Termina aqui sua época de grandes sonhos heróicos. Sua vida, doravante, apresenta-se-lhe com face mais ingrata, repleta de desgostos e misérias. Devido a esses momentos de cativeiro, aprisionamento, é que Miguel de Cervantes tanto estima a liberdade em Dom Quixote, como percebemos no diálogo do Fidalgo e Sancho Pança:

A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que aos homens deram os céus. Com ela, não se podem igualar os tesouros que a terra guarda, ou que o mar encobre. Pela liberdade, assim como pela honra, pode-se – e deve-se – arriscar a vida. Por outro lado, o cativeiro é o maior mal que pode sobrevir aos homens.

REFERÊNCIAS:

HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo, Martins Fontes, 2003.
SAAVEDRA, Miguel de Cervantes. [Trad.] AMADO, Eugênio. O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha – Volume I. Belo Horizonte-Rio de Janeiro, Itatiaia, 1997.
SAAVEDRA, Miguel de Cervantes. [Trad.] AMADO, Eugênio. O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha – Volume II. Belo Horizonte-Rio de Janeiro, Itatiaia, 1997.
RAMOS, Mário Amora. Dom Quixote – Quatro Séculos de Modernidade. São Paulo, Novo Século Editora, 2005.
SHAKESPEARE, Willian. [Trad.] FERNANDES, Millôr. Hamlet. Porto Alegre, L&PM, 2006.
BETTO, frei. A Razão Crítica de Cervantes através da Loucura de Dom Quixote. Artigo publicado no sítio www.voltairenet.org, São Paulo, 2005.
Sítio http://www.wikipedia.org/.
ANTUNES, Álvaro de Araújo. Artificiosos e Verdadeiros: Leitores e Práticas de Leitura em Dom Quixote de la Mancha.
PITOL, Celso Augusto Uequed. Dez Maneiras de Falar sobre Dom Quixote. Ensaio publicado no sítio www.digestivocultural.com. Canoas, 2005.
Encyclopaedia Britannica – Desktop Encyclopedia
MOREIRA, Maria Salete Toledo de Uzeda. A Recepção de Dom Quixote no Brasil. Ensaio apresentado no Congresso Brasileiro de Hispanistas. 2002.
Revista Entreclássicos. Edição 3: Miguel de Cervantes. Duetto. 2006.